10 Novembro 2009

In-Eyes

In-Eyes – Juliette Binoche – 2009 (Livro)

A atriz francesa Juliette Binoche está em Portugal, mais precisamente no Festival de Cinema de Estoril, levando uma mostra do seu trabalho como desenhista. A obra faz parte de um livro, lançado na França, onde Binoche catalogou vários desenhos dos diretores com quem trabalhou, ao lado da imagem da sua personagem. É o olhar dela para o cineasta, ao mesmo tempo que mostra o olhar do diretor para ela, sob o ponto de vista da atriz, obviamente.

A lista de cineastas inclui Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski, Abel Ferrara, Michael Haneke, Anthony Minghella, John Boorman, André Téchiné, Hou Hsiao-hsien, Abbas Kiarostami, dentre outros. O nome da mostra e da publicação se chama “In-Eyes”. As fotos abaixo são, respectivamente: Haneke com Binoche, do filme Código Desconhecido (2000), Abel Ferrara e Binoche em Maria (2008), e Anthony Minguella, que a dirigiu em O Paciente Inglês (1996).

05 Novembro 2009

Pornô+Chanchadas

Chanchada era um tipo de filme mal feito, sem qualidade técnica e visual e onde a comédia rasgada prevalecia. Predominava-se um humor ingênuo, burlesco, de caráter popular. O cinema da chanchada era tipicamente carioca, e ajudou ainda mais a celebrar a fama de malandro do povo do Rio de Janeiro. Alguns críticos datam o movimento no ínicio do século XX, outros adotam a filmografia da Atlântida como marcos iniciais e finais da Chanchada. Seguindo essa informação temos Carnaval no Fogo (1949) como a primeira chanchada e Garotas e Samba (1957) como último.

A Atlântida foi constituída por alguns intelectuais cariocas que sonhavam com um modelo de cinema nacional sério e rentável. Eles vinham de um grande sucesso, Moleque Tião (1943), um melodrama sobre a vida do ator Grande Otelo, que atuava como ele mesmo. Depois vieram dois fracassos consecutivos, e os executivos da Atlântida resolveram apelar para o musical, que vinha crescendo com a Cinédia e a Sonofilmes.

O primeiro musical carnavalesco foi Tristezas Não Pagam Dívidas (1943), com Oscarito e Jayme Costa no elenco. Um estrondoso sucesso, fazendo a companhia repetir a dose de trechos cômicos (livremente inspirados em peças teatrais), muita música, e um fiapo de roteiro. A dupla Oscarito e Grande Otelo virou celebridade. Com uma química ímpar, a dupla arrastou multidões ao cinema. Os dois filmaram a maioria dos carnavalescos da Atlântida, Oscarito no primeiro papel, e o grande Grande Otelo como faxineiro, secretário, uma escada para o sucesso do amigo. O filme mais completo dessa fase foi Este Mundo É Um Pandeiro (1947), de Watson Macedo.

As pornochanchadas vieram em seguida, aumentando o erotismo e colocando uma boa dose de nudez gratuita. David Cardoso reinou e fez fortuna com o gênero. Mais tarde o genial escritor Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico, colocou mais lenha na fogueira com as adaptações de suas obras cults, A Dama do Lotação (1978), Bonitinha, mas Ordinária (1980) e Perdoa-me por me traíres (1983). Era também a época da ditadura e da censura, muitas obras acabavam incompreensíveis devido aos cortes, e a exploração da sensualidade era a forma de fazer um cinema para o povo, cada vez mais levado à cultura norte-americana.

Enquanto as estrelas globais iam desfilando seus corpos nus ao grande diretor da época, Walter Hugo Khoury, que juntamente a Arnaldo Jabor passaram sem arranhões dessa fase. Era na boca do lixo onde a maioria dos filmes do movimento era feito. Reduto dos bordeis e das prostitutas de São Paulo.

Alguns cineastas nacionais ficaram estigmatizados pelo período, como o próprio Hugo Khoury de Amor Estranho Amor (1979) famoso pelas cenas quentes com Xuxa, Braz Chediak de Navalha na Carne (1970) e Neville D’Almeida de Rio Babilônia (1982), uma espécie de Cidade de Deus (2002) erótico. Foi o movimento mais popular do cinema brasileiro, e foi também o maior sucesso de público. A Dama do Lotação (1978) também dirigido por Neville é a quarta maior bilheteria da história do país.

28 Outubro 2009

Musas de Tarantino

Além de ser cinéfilo, ter uma memória privilegiada, ser dono de uma coleção de discos invejável e ser amante da boa música, Quentin Tarantino é também um mulherengo e podólatra assumido, apesar de seu primeiro filme, Cães de Aluguel (1992), ser uma espécie de clube do bolinha reeditado-estilizado e emporretado.

Depois, as mulheres passaram a ganhar destaque e não se parou mais, culminando em Jackie Brown (1997), onde Tarantino não só assume seu papel de cineasta das mulheres, como se mostra um mestre na arte de dirigir as moças.

Sua grande musa é sem duvida Uma Thurman, que teve seus pés exibidos em todos os filmes, além de ter protagonizado 3 dos filmes do diretor, foi também co-autora da história de Kill Bill (2003). Atrás de Uma vem Julie Dreyfus, coadjuvante em duas das películas de Quentin, foi alvo da podolatria do cineasta em Kill Bill (2003). Tem também que ser lembrada a eterna flashdance Jennifer Beals, única mulher no segmento O Homem de Hollywood em Grande Hotel (1995). Vivica A. Fox uma das matadoras-cobra em Kill Bill (2003), e Chiaki Kuriyama a adolescente fetiche do mesmo filme, e as garotas do absurdamente inédito À Prova de Morte (2007) merecem menção.

Agora vamos às musas separadas por filme.

Pulp Fiction – Uma Thurman

Jackie Brown – Pam Grier e Bridget FondaKill Bill – Uma Thurman, Daryl Hannah, Lucy Liu e Julie DreyfusBastardos Inglórios – Diane Kruger e Mélanie Laurent

23 Outubro 2009

Diálogos

Volto a Bastardos, espero que não se importem, mas já acho que não vão se importar. Esse diálogo faz parte da cena inicial, que segundo o próprio Tarantino é sua obra-prima, juntamente com o diálogo do siciliano, que ele apenas escreveu para Amor à Queima-Roupa (1993) de Tony Scott. O livro com o roteiro do filme Inglourious Basterds já se encontra nas melhores livrarias do país.

Escrito por Quentin TarantinoBastardos Inglórios – EUA (2009)

INT. CASEBRE DE PERRIER LaPADITE. DIA.

Col. Hans Landa: Agora se for para determinar qual atributo os germânicos têm em semelhança com um animal, seria a astúcia e o instinto predatório de um falcão. Mas se for para determinar qual atributo os judeus têm em semelhança com um animal, seria a do rato. Se um rato estivesse andando aqui nesse exato momento enquanto eu falo, você colocaria um pires do seu delicioso leite?

Perrier LaPadite: Provavelmente não.

Col. Hans Landa: Eu acho que não. Você não gosta deles. Você realmente não sabe porque não gosta deles. Tudo que sabe é que os acha repulsivos. Conseqüentemente, um soldado alemão realiza uma busca numa casa suspeita de esconder judeus. Onde um falcão olharia? Ele olharia no celeiro, ele olharia no sótão, ele olharia no porão, ele olharia em todas as partes que ele mesmo se esconderia, mas teria tantos lugares que nunca ocorreria para um falcão se esconder. Entretanto, a razão para o Führer me tirar dos meus Alpes na Áustria e me colocar no interior da França hoje é porque ocorreria para mim. Porque estou ciente de que grandes seres humanos são capazes de uma vez abandonar sua dignidade.

20 Outubro 2009

Bastardos Inglórios

Inglourious Basterds – Quentin Tarantino – 2009 (Cinemas)

Era uma vez um senhor de idade já avançada que conversava com seu neto adolescente dentro do cinema enquanto os créditos finais passavam na telona. Sua corrente no pescoço trazia a Estrela de Davi, sua voz era fraca, mas firme. O neto parecia curioso e pensativo: - Então Vô, foi assim que tudo aconteceu? O velho titubeia, mas confirma: - Sim. Claro que muita coisa foi modificada para o cinema, mas foi mais ou menos assim. Ao sair do cinema ele só conseguia pensar numa antiga frase de seu pai. A história pertence aos vencedores.

CAPITULO 1 – ÊXTASE

Assistir a um filme de Quentin Tarantino requer preparo psicológico, pelo menos no meu caso. No primeiro frame de película (sim, ele ainda filma assim) uma paisagem bucólica e campestre invade a telona. Ué, nunca vi isso nos filmes dele. Ai aparece um ator, que também nunca vimos (e olha que ele adora repetir os atores) e uma casinha modesta com som de vacas ao fundo no pasto. Mas de repente, senhoras e senhores, ouvimos os primeiros acordes do piano do Mestre Ennio Morricone na música tema de Quando os Brutos se Defrontam (1967), plam plam plam plam plam plam plam... Sim, estamos em casa, sentem-se e relaxem. CAPITULO 2 – EMOÇÃO

Existe um clichê na narração de futebol que diz que quando um jogador faz uma jogada ou um gol genial, o público deve sair e comprar novamente o ingresso. Bom, se isso vale pro futebol, poderíamos fazer valer nos cinemas, e ai nesse caso, depois do capitulo 1 de Bastardos Inglórios, todos deveriam sair, comprar seus ingressos novamente, e voltar a sentar em suas poltronas para acompanhar o final.

CAPITULO 3 – ADMIRAÇÃO

Se muita gente vem dizendo que o filme é de Christoph Waltz, o sensacional general da SS Hans Landa, eu lhes digo que estão errado. O filme é de todos nós. Se Waltz barbariza, e ele faz isso com prazer sexual para nosso deleite, seus coadjuvantes não ficam pra trás. Pra começar por Brad Pitt, cheio de trejeitos e tiques de um ator de filme B, sua gangue de bastardos alias é toda tirada de um filme B de Enzo G. Castellari, que inspirou o título e a trupe. Tem também a ala francesa, Mélanie Laurent e sua Shoshanna Dreyfus é a nova Eva Green dos cinéfilos, e Denis Menochet, protagonizando a melhor cena do filme, como Perrier LaPadite. A ala germânica é a mais cheia e encabeçada por Diane Kruger, interpretando a atriz alemã Bridget Von Hammersmarck, e colocando seus pés a serviço da podolatria Tarantiniana, Til Schweiger é o Sargento Hugo Stiglitz, Martin Wuttke como Hitler e Daniel Bruhl é o soldado herói. Então podemos dividir em: a ala estadunidense tem interpretação de segunda categoria, a ala francesa uma interpretação mais rica, técnica (afinal eles respeitam os diretores) e detalhista (será que Shoshanna não se apaixona no final?) e a ala alemã mais fiel, disciplinada e culta (a maioria fala mais de uma língua).CAPITULO 4 – REVERÊNCIA

Vou ser honesto, se o filme acabasse no primeiro capitulo, batizado “Once Upon a Time … Nazi Occupied France”, homenagem óbvia a Sergio Leone, eu sairia satisfeito. Reparem também na cena em que a pequena Shoshanna escapa e a câmera de dentro da casa escura focaliza seu corpo no meio da porta se distanciando na bela paisagem. (sei que to enfurnado no cinema de Michelangelo Antonioni atualmente, mas me pareceu uma homenagem). Mas Tarantino consegue surpreender (se para ele ainda fosse necessário). Diálogos afiados, cenas de arrepiar a alma, atores mostrando o poder da bela interpretação, um cineasta em sua melhor forma, drama, comédia, ação e inteligência em níveis proporcionais, por tudo isso Monsieur Tarantino eu lhe digo: Bravo.

CAPITULO 5 – Putting out the fire, with gasoline

I think this just might be my masterpiece.Algumas curiosidades:

● Cinco títulos que inspiraram Tarantino em Bastardos Inglórios: Cinco Covas no Egito (1943) de Billy Wilder, de onde se inspirou para criar o soldado herói nazista Fredrick Zoller, Esta Noite Bombardearemos Calais (1943) de John Brahm, Action in Arabia (1944) de Leonide Moguy, Fugindo do Inferno (1963) de John Sturges, e Os Doze Condenados (1967) de Robert Aldrich.

● Apesar de não repetir a escalação de nenhum ator principal, o filme conta com Samuel L. Jackson como o narrador, a voz de Harvey Keitel como o oficial da OSS que aceita o acordo com Hans Landa e Julie Dreyfus como a namorada do ministro da propaganda de Hitler, Goebbels.

● A personagem de Til Schweiger, o Sargento sabotador dos nazistas Hugo Stiglitz, é uma homenagem ao lendário ator mexicano Hugo Stiglitz.

● O filme Nation’s Pride que passa no cine Le Gamaar, foi dirigido por Eli Roth, que interpreta Donnie Donowitz, ou Urso Judeu.● No filme Nation’s Pride, a voz do soldado que grita: "I implore you, we must destroy that tower!", é de Tarantino.

● O título do filme veio do homônimo italiano que também conta a história de soldados norte-americanos e foi dirigido por Enzo Castellari, que faz uma ponta no filme de Tarantino.

● O cachimbo que Hans Landa fuma na casa de LaPadite se chama Calabash Meerschaum, mas é conhecido como o cachimbo de Sherlock Holmes.

● No jogo das cartas na taverna um soldado leva na testa o nome da atriz Mata Hari, uma atriz e cortesã que foi espiã durante a I Guerra Mundial, e inspirou a personagem de Diane Kruger.● O primeiro soldado alemão a ser escalpelado é o cineasta Quentin Tarantino.

● A razão da enorme cicatriz no pescoço de Aldo Raine, personagem de Brad Pitt foi que ele escapou de um linchamento, o que era comum entre os anos 20 e 30.

● O título do primeiro capitulo Once Upon a Time … Nazi Occupied France, era o nome do filme. Os capítulos subseqüentes são: Inglourious Basterds (2), Noite Alemã em Paris (3), Operação Kino (4) e Vingança da Face Gigante (5).

15 Outubro 2009

À Bout de Souffle

Momento Mágico: Acossado (Jean-Luc Godard)

Em plena Champs-Élysées, a personagem de Jean Seberg, Patricia Franchini, vende, a plenos pulmões, o exemplar diário do New York Herald Tribune portando a camisa do jornal e sendo assistida pela personagem de Jean-Paul Belmondo, Michel Poiccard, se deleita com a cena e o gritinho da garota. 43 anos depois, o cineasta Bernardo Bertolucci também se deleitou com a cena, e a repetiu em seu filme-homenagem Os Sonhadores (2003). Cinematografia de Raoul Coutard.

05 Outubro 2009

Amantes

Two Lovers – James Gray – 2008 (Cinemas)

Apesar da mudança do gênero, policial para o drama, James Gray continua no mesmo tema, problemas familiares. Leonard (Joaquin Phoenix) carrega nas costas todos os problemas do mundo por ser calado e seguir regras impostas por seus pais. Abandonado pela namorada, colecionando tentativas de suicídios, ele conhece Michelle (Gwyneth Paltrow) uma vizinha com quem faz amizade.

Leonard é muito diferente de Bobby Green de Os Donos da Noite (2007), mas possuem o mesmo princípio familiar, e esse acaba sendo a principal veia de inspiração de James Gray no roteiro de Two Lovers. Tanto Leonard quanto Bobby estão na encruzilhada da vida entre seguir seus instintos ou seguir códigos familiares, mas, apesar desse dilema ser o grande trunfo de Gray, não só nos dois filhes, mas em sua filmografia, será também seu calvário, já que a repetição da fórmula acaba estragando o final.

Usando uma fotografia em technicolor, o que dá um aspecto envelhecido a película, já que a marca não é usada desde os anos 60, o cineasta intensifica seu desejo de situar o filme num período que ele não pertence, já que a história se passa nos dias atuais. O fato é que James Gray tem talento, sabe como poucos em Hollywood contar uma história densa e profunda usando como pano de fundo qualquer gênero.

30 Setembro 2009

Diálogos

Esse é daqueles textos que a pessoa lê lembrando do ator que a interpretou. Esse diálogo (quase um mónologo em que Keanu Reeves vira um pequeno grão de areia) é a cara de Al Pacino, ele o disserta com óbvia satisfação, com o prazer vaidoso do intérprete. Afinal, vaidade é seu pecado favorito. Vamos a ele:
Escrito por Andrew Neiderdman (livro), Jonathan Lemkin e Tony Gilroy – O Advogado do Diabo – EUA (1997).
INT. COBERTURA DE JOHN MILTON. O DIABO, KEVIN LOMAX E CHRISTABELLA ANDREOLI.
John Milton:
Pra quem você carrega todos esses tijolos? Deus? É isso? Deus? Vou te falar, deixe-me lhe dar uma pequena informação confidencial sobre Deus. Deus adora olhar. Ele é um brincalhão. Pense bem. Ele dá ao Homem instintos. Ele lhe dá esse extraordinário dom, e depois o que Ele faz? Eu juro, pra Seu próprio divertimento, Sua própria comédia privada cósmica dos erros. Ele coloca regras contraditórias. É a piada de todos os tempos. Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula. E enquanto você pula de um pé pro outro, o que Ele faz? Ele ri pra caralho! Ele é um escroto! Ele é sádico! Ele é um proprietário ausente! Adorar isso? Nunca!
Kevin Lomax:
“Melhor reinar no inferno do que servir no paraíso”, é isso?
John Milton:
Porque não? Eu estou aqui no chão com meu focinho desde que a coisa toda começou! Eu nutri cada sensação que o Homem foi inspirado a ter! Eu me preocupei com o que ele queria e nunca o julguei! Porque? Porque eu nunca o rejeitei, mesmo com todas as suas imperfeições! Eu sou um fã do Homem! Sou um humanista, talvez o último dos humanistas. Quem, em plena consciência Kevin, poderia negar que o século vinte foi inteiramente meu? Tudo disso ai, Kevin! Tudo disso. Meu.

24 Setembro 2009

A Partida

Okuribito – Yôjirô Takita – 2008 (Cinemas)

A água é extraída do subsolo e aquecida com lenha. Isso a torna mais suave. É por isso que é quente, mas não arde.

O título em japonês significa pessoas que enviam. É uma palavra forte e raramente usada na cultura oriental.

A Partida é um filme de aguçada sensibilidade, e roteirizado com veracidade e domínio para resguardar a inteligência do espectador. Daigo (Masahiro Motoki) é um violoncelista que recebe a notícia que a orquestra que toca vai encerrar os trabalhos. Ele decide retornar a pequena cidade onde nasceu e consegue um estranho emprego. Daigo prepara as pessoas para partir. E como todos os trabalhos não comuns, ele sofre preconceitos por seu oficio. Sua esposa quer que ele arranje outro tipo de trabalho, apesar de seu chefe ser quase uma referência paterna para ele.Daigo é um homem que veio de família humilde e foi educado modestamente. Isso o tornou mais introvertido. É por isso que é meigo, mas forte. Apesar de ser um ritual moderno, a tradição e a cultura japonesa, faz com que pensemos que se trata de uma cerimônia secular, e aí que entra a beleza do roteiro e a sensibilidade do cineasta Yôjirô Takita, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Takita, um experiente cineasta nipônico, desarma qualquer reação da platéia à medida que vai mostrando o ritual do trabalho de Daigo. Esqueça as risadas, esqueça o incômodo, esqueça o estranhamento.

Os diretores saem de mercados menos conhecidos e são reverberados por pequenos grupos. Isso os torna mais sensíveis, poéticos. É por isso que são gênios, mas não intocáveis.

22 Setembro 2009

L'avventura

Momento Mágico: A Aventura (Michelangelo Antonioni)

Em 1960, pela primeira vez na história de Cannes, um filme foi ridicularizado e poucas horas depois ovacionado. Trata-se de A Aventura (1960) do cineasta Michelangelo Antonioni. Ao final do festival, recebeu um prêmio especial pela contribuição da obra ao cinema, e pelas imagens inesquecíveis do filme. Passados 49 anos, o Festival de Cannes decidiu homenagear novamente a obra estampando um fotograma editado em seu pôster de 2009. O resultado pode ser conferiado ai do lado nos links. Abaixo pode ser vista a imagem original capturada da película. Cinematografia de Aldo Scavarda.
Aproveito a oportunidade para divulgar e também homenagear Antonioni, cineasta que está me deixando imerso em suas obras e fascinado por suas imagens. É o flick do Museu do Cinema, que você poderá ver aqui. Trata-se de um trabalho amador, que tentaremos sempre dar um aspecto cinematográfico as fotografias.

19 Setembro 2009

Inimigo Público nº 1

L’instinct de Mort – Jean-François Richet – 2008 (Cinemas)

A tela se divide em duas, uma ruiva de cabelos crespos é vista numa tela de frente, e em outra, maior e widescreen, é vista de costas. A trilha provoca suspense. A garota parece agitada e nervosa, olhando pra trás é vista pelas duas telas. A imagem em plano aberto mostra que ela puxa um cachorro pela coleira. Ela passeia com o animal sempre olhando de um lado pro outro. Aparece um sujeito na tela pequena. Logo aparece também na maior, visto por outro ângulo. Corte para duas telas iguais, uma foca na mulher, com o rapaz vindo no fundo desfocado. Na outra, o contrário, ele em foco e ela nublada. O diretor divide a tela em muitas formas, e dando a nossa visão em diversos ângulos. Um close nele e percebemos que se trata de nosso protagonista, apesar do cavanhaque, dos óculos e da cabeleireira. Agora a tela é inteira de uma garagem se abrindo, mas uma tarja preta com o crédito do cenário a corta, é o cineasta brincando conosco. Um BMW da década de 70 sai. Os dois estão dentro. A trilha provoca mais suspense ganhando notas pesadas no exato momento que ele vai cruzar a pista. Bum! Um carro buzina forte. Nosso protagonista pisa o pé no frio de solavanco. Não foi nada, só o susto. Tudo se divide novamente. O carro dá ré e para no meio da pista. A garota entra num prédio, ele vai até atrás do carro, tira os óculos, coloca a mão nos olhos, vemos tudo seguidamente em 5 telas, repetindo as expressões do ator. A tela ganha mais uma divisão, agora são 6, para mostrar a ruiva saindo do apartamento segurando uma bolsa e um casaco. Tudo pra mala do carro. Agora ele entra no prédio e sai rapidamente carregando uma mala grande. Eles entram no carro e partem. O que era uma pequena tela widescreen na parte esquerda, vai aumentando com a saída do carro até ganhar ela toda. Pronto, acabaram-se os créditos. A trilha de suspense continua, o carro vai andando nas ruas entre outros veículos. Uma moto passa do lado. Um caminhão pede passagem para nosso protagonista, que cede. Todos param num semáforo vermelho, o casal parece relaxado, mas o cachorro, lembram dele, está agitado, ele dá um latido forte em direção ao caminhão, atraindo a atenção de nosso protagonista. É quando saem da parte traseira do caminhão 4 homens apontando suas armas e engatilhando-as. A garota vira o rosto e solta um grito estridente.Jacques Mesrine se tornou o inimigo público número 1 da França em 1979, depois de diversos assassinatos, seqüestros, roubos, e até uma fuga cinematográfica da prisão, época que escreveu o livro autobiográfico Instinto de Morte, ele foi morto pela polícia numa emboscada até hoje não esclarecida.

A vida de Mesrine ganha, pela segunda vez, uma adaptação para o cinema, desta vez dois filmes narram à trajetória do mais famoso bandido francês. Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte, a primeira parte, explora o comportamento, os amores, e a vida do marginal tentando encontrar razões. Vincent Cassel dá vida ao personagem na melhor interpretação de sua carreira – ganhou o César de melhor ator. O marido de Monica Bellucci engordou 20kg e teve que perdê-lo durante as filmagens dos dois longas. A direção de Jean-François Richet prima em mostrar os melhores ângulos e captar as melhores situações dos atores. Numa história que Hollywood já explorou bastante, Richet consegue trazer algo novo ao gênero.

17 Setembro 2009

Clube dos Cinco

“...E as crianças que você despreza enquanto tentam mudar o mundo são imunes aos seus comentários. Elas sabem bem o que está acontecendo com elas...” David Bowie.

The Breaksfast Club – John Hugues – 1985 (DVD)

Sábado, 24 de março de 1984.

Escola de segundo grau Shermer. Shermer, Illinois. 18:02 da tarde.

Prezado Sr. Vermon,

Aceitamos ter que passar o sábado de castigo pelo o que fizemos de errado. O que fizemos foi errado. Mas é loucura nos forçar a escrever uma redação sobre nós mesmos. Você não liga de qualquer maneira. Você nos ver como quer, de uma maneira simplista e que mais lhe convém. Você nos vê como o gênio, o atleta, a louca, a princesa e o marginal. Certo? É isso que achávamos de cada um de nós quando nos encontramos. Sofremos uma lavagem cerebral.
● As razões das detenções dos cinco no sábado foram: Bender: puxou o alarme de incêndio. Brian: Um sinalizador disparou em seu armário. Andy: Colocou a foto de um cara com a bunda junta no vestiário. Claire: filou aula pra ir ao shopping. Allison: não fez nada, ela não tinha nada melhor pra fazer num sábado.
● O cineasta John Hugues aparece como o pai de Andy no final do filme, dirigindo o carro.
● A citação de David Bowie que ilustra o post, e foi reproduzido também no filme, é parte da música Changes, do albúm Hunky Dory.

15 Setembro 2009

A Malandrinha

Curly Sue – John Hugues – 1991 (DVD)

John Hugues ficou sentimental com o passar dos anos. Seu derradeiro filme é uma fábula moderna sobre paternidade e a educação – esse, um tema recorrente em sua filmografia.

A Malandrinha é a essência dos filmes de Hugues, algumas vezes politicamente incorreto, mas com mensagens positivas e essencialmente correto.

Curly Sue (Alisan Porter) é uma gracinha de garota, cativante, falastrona e esperta, seu maior medo é ser abandonada novamente pela figura do pai, Bill (James Belushi). A dupla ganha à vida fazendo pequenas armações, mesmo tendo um forte código de conduta – eles não roubam. Tudo muda quando eles simulam um acidente envolvendo a advogada Grey (Kelly Lynch, linda como nunca). O filme é a estréia de Steve Carell nos cinemas num pequeno papel.

13 Setembro 2009

Quem vê cara não vê Coração

Uncle Buck – John Hugues – 1989 (DVD)

A música denuncia que estamos num filme de John Hugues, Uncle Buck entra na escola fumando um charuto. Ele foi conversar com a diretora sobre a sobrinha Maizy. Na sala de espera uma criancinha aguarda sua vez pacientemente e nervosamente. Não é pra menos, Anita Hoargarth parece à irmã de Hitler, e sua verruga uma bola de futebol. Abrindo a boca percebemos que a aparência não é nada, aquela mulher é uma bruxa. Educadora há 31.3 anos, ela diz, com todas as letras, que Maizy é uma “semente” ruim porque é sonhadora, bestinha e tagarela, e que não leva nada a sério em sua vida. Maizy tem 6 anos. Porém, Anita escolheu a pessoa errada para falar essas coisas, Uncle Buck vai lhe dar uma lição.

Tio Buck (John Candy) é um homem cheio de defeitos, mas assim como em todos os filmes de John Hugues, ele tem qualidades fundamentais no universo huguiniano, Buck tem princípios, não tolera gente preconceituosa e respeita as crianças.

Seu irmão, Bob (Garrett M. Brown), sabe dos defeitos de Buck, vagabundo, descompromissado e enrolado, mas para desespero da esposa de Bob, Cindy, eles terão que chamar Buck para tomar conta das seus filhos (duas crianças e uma adolescente), porque terão que viajar pra Indianópolis por causa do estado de saúde do pai de Cindy.

Uncle Buck faz parte do acordo de Hugues com a Universal para a produção de 3 filmes. É a trilogia da vida adulta, Antes só do que Mal Acompanhado, e Ela vai ter um Bebê completam a série. O sucesso estrondoso e a bilheteria do filme rendeu uma telesserie homônima de 1990 a 1991 com Kevin Meaney interpretando o Tio Buck. Macaulay Culkin interpreta um dos sobrinhos de Buck.

Mais uma vez somos brindados com uma trilha emocionante e alegre de Ira Newborn.

06 Setembro 2009

AntiCristo

Antichrist – Lars Von Trier – 2009 (Cinemas)

Uma mulher chorando é uma mulher arquitetando.

Prólogo

Ao som da ária Lascia Ch’io Pianga da Ópera Rinaldo, e em imagens lentas e em p&b, um casal toma banho. A janela da casa se abrindo denuncia a neve e a ventania lá fora. Eles começam a fazer sexo dentro do chuveiro. Close nos genitais. O casal vai pra cama. A babá eletrônica dá sinais de zoada no quarto do bebê. O casal não ouve. O bebê se encaminha perigosamente para a janela aberta. Ao fundo se vê o casal transando. A criança já está em cima da mesa em frente à janela, quando a mulher anuncia seu orgasmo. O inevitável acontece.

Cap. 1 (Pesar)

O casal de protagonistas, interpretado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (vencedora do Festival de Cannes), sofrem com a morte do filho. Ele, um psiquiatra, resolve ajudar a mulher, uma historiadora, que parece ter sentido mais a perda, inclusive se internando numa clínica e se entupindo de medicamentos.

Cap. 2 (Dor – O caos reina)

A proposta dele é partirem para a psicoterapia cognitiva, que leva em conta as interpretações que cada um dá a si, e aos acontecimentos, pra tentar entender e modificar suas emoções e seu modo de agir, começando por elaborar uma lista de medos.
Cap. 3 (Desespero – Genocídio)

Lars Von Trier não esconde de ninguém que o filme é autobiográfico, e foi criado numa profunda depressão de criatividade que o cineasta passou.

Cap. 4 (Os três pedintes)

O filme é dividido em quatro capítulos, que reproduzi acima, além do prólogo e epílogo. Os displays que aparecem sobre imagens abstratas são do artista dinamarquês Per Kirkeby. AntiCristo é inspirado pelo livro de cabeceira de Von Trier, O Anticristo, um manifesto anti-cristianismo de Nietzsche.

Epílogo

Apesar das críticas que se lê por ai, há duas cenas polêmicas no filme que não chegam a chocar, principalmente para quem se acostumou a ver filmes violentos hollywoodianos. A fotografia em preto e branco do inicio (prólogo) e fim (epílogo) do filme são os pontos altos da direção de Anthony Dod Mantle, constante colaborador de Von Trier.